Para Laila

Em Cabul, especialmente na zona oeste da cidade, os incêndios se espalhavam e rolos de fumaça negra se erguiam como cogumelos sobre os prédios cobertos de neve. As embaixadas foram fechadas. As escolas também. Nas salas de espera dos hospitais, segundo Rashid, os feridos sangravam até a morte. Nos centros cirúrgicos, estavam amputando membros sem anestesia.

— Mas não se preocupe — disse ele. — Comigo, você está a salvo, minha flor, minha gul. Se alguém tentar lhe fazer mal, arranco o fígado do sujeito e o obrigo a comê-lo.

Naquele inverno, para onde quer que Laila se virasse, encontrava muros bloqueando o seu caminho. Tinha saudade do céu limpo e claro de sua infância, dos dias em que ia com babi assistir aos torneios de buzkashi ou fazer compras com mammy em Mandaii, das correrias pelas ruas e das conversas sobre os garotos com Giti e Hasina. E dos dias em que sentava com Tariq num canteiro de trevos, às margens de um riacho qualquer, brincando de charadas e chupando balas, até o sol se pôr.

Mas lembrar de Tariq era perigoso, porque, antes que conseguisse se conter, já o via numa cama, longe de casa, cheio de tubos enfiados pelo corpo queimado. Como a bile que lhe queimava a garganta naqueles dias, uma dor profunda, paralisante, vinha subindo pelo seu peito. Suas pernas ficavam bambas, a tal ponto que ela precisava se segurar para não cair.

Laila passou todo o inverno de 1992 varrendo a casa, esfregando as paredes cor-de-abóbora do quarto que dividia com Rashid, lavando roupas num grande lagaan de cobre, que ficava no quintal. Às vezes via a si mesma como que pairando acima do próprio corpo. Via-se agachada na borda do lagaan, com as mangas arregaçadas até o cotovelo e as mãos avermelhadas, torcendo uma das camisetas do marido. Então, sentia-se perdida, como o sobrevivente de um naufrágio que procura em vão por uma praia, mas só vê quilômetros e quilômetros de água.

Quando estava frio demais para ir lá fora, Laila ficava perambulando pela casa. Andava de um lado a outro do corredor, passando a unha pela parede, descia a escada, voltava a subir, sem sequer ter lavado o rosto ou penteado o cabelo. Ficava andando até encontrar Mariam, que se limitava a lhe lançar um olhar melancólico antes de voltar a cortar o talo de um pimentão ou a retirar as pelancas de um pedaço de carne. O aposento se enchia de um doloroso silêncio e Laila quase podia ver a muda hostilidade que irradiava de Mariam, como as ondas de calor que se erguem do asfalto. Voltava então para o seu quarto, sentava na cama e ficava vendo a neve cair.

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