Entrevista com o Ser Inexistente

Boa tarde, Sr. Ser Inexistente. Muito obrigado por me receber para essa entrevista. Gostando de São Paulo?

São Paulo continua me causando o mesmo impacto de sempre. O sol ilumina de um jeito diferente aqui. 36 graus aqui são diferentes de 36 graus de outros lugares. E não é que o calor é mais intenso, é a luz que parece incidir de forma diferente, deixando tudo mais brilhante, nítido, quente. Música é melhor de ser ouvida aqui. E não é só música brasileira, é qualquer uma. As livrarias e os cafés conseguem ser mais simpáticos com muito pouco esforço. O mérito é a localização: na Avenida Paulista tudo é mais charmoso. E chega-se à conclusão: shoppings são para quem não tem praia aos finais de semana. Mas isso não é um problema, eu gosto de gente.

Bom, para começarmos de fato, gostaria que o senhor falasse um pouco sobre como anda sua carreira e sua vida pessoal…

Para dizer a verdade, estou muito cansado. Acho que tenho que tentar descansar e dormir. Como bem sabe, a vida necessita de pausas. Tudo bem, vou ser franco de uma vez: estou perdido em todos os sentidos. Que esforço para me manter vivo! Erguer um monumento não requer um esforço tamanho. Ai, meus pobres nervos! Já percorri tantos anos e não aconteceu nada. Queria sentir uma mudança qualquer em mim. Uma ruga a mais, por exemplo. Uma coisa nova, nem que fosse de velhice. Que Deus me dê tranquilidade. Bastaria encontrar alguém que fosse mais forte do que eu, entende?

Provavelmente, isso tem relação com o que ando lendo por aí. Dizem que o senhor está passando por uma crise de criatividade, que não tem mais produzido, que está desistindo. É verdade?

Sim, ando meio indiferente a tudo e não consigo criar. A cada segundo que passa percebo o quão insignificante e pequeno sou. A vida me tornou uma pessoa amarga. Cada amanhecer mais insuportável. Tenho culpa nisso, assumo. Assim como os vacilos e desgastes das relações humanas tiraram o brilho do meu cotidiano – do momento em que me levanto ao instante em que me deito -, os anos de convivência nesse atoleiro de desilusões deixaram o meu foco artístico muito mais opaco. Fiquei rabugento, ranzinza, chato mesmo. Meu olhar ficou viciado em objetividade, infelizmente. Minha cabeça pensa em podar coisas livres, lamentavelmente. Mas ainda não desisti, não desisti, eu espero.

Por seu estado, o senhor acha que sua vida está se esgotando?

A vida sempre acaba, e não é uma vez só. É como se tudo que fizéssemos embolorasse logo depois, fazendo com que esquecêssemos do gosto do que comemos. Você admira tanto, e quanto consegue pegar, percebe que talvez fosse melhor ficar admirando. Fica só a lembrança daquele cheiro de mofo e aquela aparência decrépita, de coisa passada do ponto, de oportunidade perdida, coisa mal aproveitada. Por que eu bebo a vida mesmo? Afasta de mim! Você nunca sentiu ressaca da existência? Os dias passam e parece que a cerveja sempre acaba nas horas improváveis, quando a adega do bairro já fechou. Você está faminto, pega o pão e não há fatias o bastante de salaminho para preencher o sanduíche. A existência é o óbvio desagradável, a surpresa perversa. É despertar continuamente dos sonhos bons. Ano inteiro de quarta-feira-de-cinzas. A vida é sempre o dia anterior. O sono compartilhado é o corpo de delito do amor.

O senhor não crê ao menos em um destino para os homens?

Eu não consigo pensar em outra coisa para dizer: toda vida é exatamente aquilo que devia ser. O mundo todo é um palco. E todos, homens e mulheres, apenas atores. Eles entram e saem de cena. E cada qual a seu tempo representa diversos papéis

Então o senhor não acredita em nada?

Parece que me apaixonei pelo nada, mas acredito em mudar o pensamento dos homens sobre si mesmos e, consequentemente, seus destinos. É minha última luta e vou morrer tentando. Tenho pena da época em que vivemos. Vivemos num mundo sem consolo, do qual Deus se retirou, e não fazemos nada para mudá-lo e nem para construirmos o nosso destino. Antigamente, o silêncio era dos imbecis; hoje são os melhores que emudecem. O grito, a ênfase, o gesto, o punho cerrado, estão com os idiotas de ambos os sexos. Mesmo com todo o conhecimento que as gerações anteriores nos legaram e com as possibilidades da Internet, estamos acomodados com a situação deplorável em que nos encontramos. Anote: em uma terra de fugitivos, aquele que anda na direção contrária parece estar fugindo. Eu estou fugindo. E me diga uma coisa: do que adianta você ter essa alma colada aos ossos, dessa carne errada? Sem o risco a vida não vale a pena. Se você não quiser arriscar, não comece. Isso quer dizer: e se você arriscar e perder namorada, esposa, filhos, emprego, a cabeça e até a alma? Mas é sempre melhor isso do que olhar para todas essas outras pessoas que nunca acertam, porque nunca se propõem ao risco, ou não também. O dono da verdade precisa é descobrir a verdade sobre si mesmo. Não tem jeito, nossas verdades são só palpites; tudo que não inventamos é falso. Precisamos descobrir o que somos e qual será o nosso destino. Afirmo: isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além.

Acha que é por essas idéias que consideram o senhor um louco? O que tem a dizer a respeito dessas acusações?

Nós não podemos falar nada sobre nós e a nossa época sem começarmos por definir a loucura. Como é que se explica que nós sejamos seres dotados de razão, enquanto a nossa sociedade é tão ligada à loucura? Como pode uma pessoa que se gaba por ter toda a sua razão agir como se estivesse louca e acreditar nas idéias loucas que a sociedade lhe impõe? Nós podemos encontrar uma resposta para isso com aqueles que perderam a razão. O que é que os deixou loucos? As pessoas ficam assim quando não chegam a criar uma relação funcional e prática com a sociedade e com a realidade. O que eles fazem? Eles criam uma sociedade que é uma realidade para eles. Eles ficam loucos para não perderem a sua razão. A sua loucura é a explicação que eles dão para a loucura que eles encontram no mundo. A loucura é a saída mais viável. Essa é a minha filosofia e deveria ser a sua também. Lembre-se: nunca ande pelo caminho traçado, pois ele conduz somente até onde os outros já foram. E você sempre será louco. Eu sou normal, mas pensam que sou louco porque sou diferente dos demais que são sim, loucos. Mas então continuo sendo louco, porque se o que eu sou é ser normal, e eu afirmo que sou normal, mas vocês são loucos, sou louco por viver em um mundo de loucos onde não respeito o senso comum. Eu deveria fugir.

Não é incoerente o senhor desprezar a vida, afirmar que ela é sempre o óbvio desagradável, e logo depois falar dela com tamanha paixão?

Eu amo a vida! Qualquer homem inteligente é incoerente. A coerência é apenas um exercício de uma inteligência essencialmente incoerente.

O senhor também é constantemente acusado de ser um vagabundo. Dizem que é escritor e poeta, mas que nunca lançou nenhum livro. Afinal de contas, qual a sua profissão? Em que horário o senhor exerce suas funções?

O escritor vive. Ninguém é escritor das oito ao meio-dia e das duas às seis. Quem é poeta é poeta sempre, e se vê continuamente assaltado pela poesia. Assim como o pintor é assediado pelas cores e pelas formas, assim como o músico se sente procurado pelo estranho mundo dos sons, o escritor deve pensar que tudo é argila, com que fará da miserável circunstância de nossa vida alguma coisa que possa aspirar à eternidade. Não me venha falar de profissão. Escrevo quase porque não há felicidade ou dor que sejam apenas físicos, os dois sempre recebem intervenções do passado, das circunstâncias, do assombro e de outros fatos da consciência e da inconsciência. Desculpe, mas não sou um homem de frivolidades e inutilidades sem sentido metafísico.

Então, para o senhor, só a arte pode nos salvar?

Salvar? Sei lá. Só sei que as coisas em geral não são tão fáceis de apreender e dizer como normalmente nos querem levar a acreditar; a maioria dos acontecimentos é indizível, realiza-se em um espaço que nunca uma palavra penetrou, e mais indizíveis que todos os acontecimentos são as obras de arte, existências misteriosas, cuja vida perdura ao lado da nossa, que passa. Suspeito que o universo não é apenas mais estranho do que supomos – é mais estranho do que somos capazes de supor.

Acha que as gerações futuras ouvirão sua voz algum dia? Parece-me um pouco romântico demais para um mundo cada vez mais eficiente.

Difícil. Mas eu gosto de crianças, e crianças gostam de histórias.

Nota do entrevistador:

Compuseram o Ser Inexistente nesta primeira entrevista: Clarice Lispector, Manoel de Barros, Franz Kafka, Goethe, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Alves, Willian Shakespeare, Jorge Amaral, André Toso, Jorge Luis Borges, Rainer Maria Rilke, Rubem Fonseca, Milan Kunderae eu mesma.

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