Como é que se diz ‘eu te amo’?

Há tempos (to toda Legião Urbana hoje) Renato Russo se questionava como é que se dizia ‘eu te amo’, e se eu pudesse respondê-lo hoje diria que é com a maior cara de pau.

E isso é uma grande pena. Enquanto Chuck e Blair passam temporadas a fio se debatendo pelas três palavras mágicas, vejo um mundo inteiro que diz ‘eu te amo’ a torto e a direito. Meninas gritam de felicidade porque no segundo encontro o garoto já consegue dizer que a ama. Tão rápido assim? Claro que pode acontecer, não é mesmo Aidan? Mas será mesmo que é possível existirem mais amores relâmpagos na vida real do que em livros da Marian Keyes?

As palavras mágicas não são mais um grande passo no relacionamento, mas sim uma forma de agilizar as coisas. É a tática para agradar os mais exigentes e amolecer os mais românticos. ‘Eu te amo’ não é mais declaração, é só mais um ‘bom dia’.

A frase perde o sentido. Quem é inteligente não acredita no ‘eu te amo’. O que é dito entre uma frase e outra, ou entre um silêncio e outro, com o coração acelerado e a expectativa de ‘o que será que ela (ou ele) vai dizer de volta (ou até não dizer!)?’ agora já começa sendo recebido com desconfiança. ‘Ah, tá, diz que me ama. Sei’, pensa o destinatário da declaração lá com seus botões. A estratégia, já muito batida, mal tem efeito, e a declaração sincera passa por cópia barata.

E hoje em dia, como é que se diz eu te amo?

Não é necessário mais dizer, mas sim demonstrar. Quando o ‘eu te amo’ vira frase de esquina, é preciso buscar uma resignificação. Quem sabe, com o tempo, aqueles que quiserem tentar começar algo, conhecer a pessoa de verdade, venham a preferir apenas um sincero ‘gosto muito de você’, e os que tiverem como objetivo amolecer os mais exigentes podem voltar às origens e oferecer carinho, atenção e quem sabe até flores. Com o ‘eu te amo’ tão batido, podem enfim parar de dizê-lo esperando por um ‘eu também’ como resposta, e sem precisar aparecer com um ‘te amo como amigo(a)’ no próximo encontro.

Talvez assim, dê pra novamente acreditar no ‘eu te amo’. Não que ele seja eterno, posto que é chama, como já dizia Vinícius, mas que os declarantes possam ter a ousadia e a coragem de admitir que já amaram um dia, ainda que o fogo não esteja mais aceso. Dizer ‘eu te amo’ sem querer significá-lo é covardia – é como atropelar e depois dizer que não tinha intenção de machucar. Melhor uma vida inteira sem ouvir um ‘eu te amo’ do que receber essas palavras, um dia tão valorosas, sem significado real. É preciso cuidado com o sentimento que nos motiva a nos declararmos, porque nem tudo nessa vida é estratégia diplomática.

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