Retalhos

Você não é auto-suficiente, jamais será independente e não faz diferença no mundo.

Talvez você tenha aí o seu carro e não precise mais pedir emprestado do seu pai, e é bem possível que tenha a sua casa, na qual a sua cama poderá ficar desarrumada por tanto tempo quanto você achar necessário, mas você jamais poderá dizer que chegou ali sozinho, porque na maioria das vezes chegamos onde estamos somente por conta de quem está ao nosso redor.

E uma coisa que eu mesma preciso me acostumar. Eu não estou aqui por conta própria, e muito do que sou hoje é influência de muita gente em volta.

Minha letra, por exemplo. A minha letra é uma grande mistura de imitações. Passei muito tempo imitando a letra de forma de uma colega de classe porque parecia cool, imitei a letra redondinha da professora de português da oitava série, e passei a vida toda imitando a letra da minha irmã. E além da minha letra, aprendi mil coisas com os outros ao meu redor.

L. me ensinou que o valor dos presentes não está no seu custo, mas na atenção que ele demonstra. Foi dela que recebi grande parte dos presentes que ainda guardo com muito carinho, pelo menos no coração, como um desenho em um pdf que eu nunca pude pegar.

B. me ensinou a dizer adeus e que a distância não faz a menor diferença quando a pessoa é realmente importante para você. Foi para ele que eu fiz cartas que nunca entreguei, tentei escrever alguma coisa todo dia, e tentava ser legal no Skype.

I. foi o primeiro caso de revolta com pais de amigos. Com ela aprendi a tentar ser um pouco mais compreensiva com a minha mãe, apesar de eu sempre achar que ela era compreensiva demais com a dela, e de ter, em vão, tentado argumentar que ela não podia ameaçar a sua vida carregando tudo nas costas. O tempo se foi, um monte de coisas mudaram e se duvidar, ela nem se lembra mais do episódio, mas tá aqui, junto com todas as coisas que me moldaram.

Eu cresci tentando o tempo todo sair de casa, ser independente, mas nem a música que escuto hoje é uma decisão só minha. Até hoje eu lembro da primeira vez que ouvi V, o quinto CD do Legião inúmeras vezes seguidas deitada olhando pra cima. Eu roubava os CD’s do Legião do armário da minha irmã, colocava no aparelho de som e escutava, só escutava. Parada. Mas aquele CD nunca tinha sido escolhido, por alguma razão desconhecida, e descobrir que existiam outras músicas tão boas como aquelas que eu já havia escutado, e até melhores como Metal Contra As Nuvens, foi fantástico.

No colégio, achei que eu já sabia o que queria ser pra vida inteira, mas ainda tinham muitos amigos por vir. B. me fez argumentar por dias a fio sobre algo que provavelmente eu não tinha razão, mas que não tinha outra grande justificativa. N. me apresentou ao incrível mundo alcoólico juvenil, e fizemos imensas melecas depois do trabalho.

F. é tipo tudo o que eu precisava saber sobre um novo eu, desenvolvido nesses últimos anos. Ao contrário de todas as outras pessoas do meu mundo até então, ele não era caricato, ou de um tipo específico. F. me ensinou que nem sempre as pessoas estão agindo de alguma forma pelo motivo que você acha que estão. F. é tipo o Google melhorando a minha vida.

Hoje eu sei que eu sou na verdade um grande emaranhado de influências externas. Os materiais de maquiagem na minha gaveta hoje são um oferecimento de B., o conformismo com a minha sempre presente insegurança é sempre compartilhado com um outro B., que também tem o incrível poder de fazer com que os meus problemas sejam sempre muito menores, comparados com os dele.

Nessa listagem toda, exclui obviamente a influência de várias pessoas, inclusives as ruins.

O que eu me propus, ao começar esse texto que mais tem cara de despedida, é a aceitar e compreender que eu sou na verdade uma grande colcha de retalhos. Tem ali uns retalhos mais frequentes, de panos mais extensos, mas tem aqui ou acolá um pedacinho rasgado de um vestido, uma ponta de uma calça velha ou um filetinho daquele macacão mais lindo de todos da infância.

No final, eles nem sabem o quanto fizeram a diferença, mas não tem problema.

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Um comentário em “Retalhos

  1. Quando comecou a escurecer o menino estava cansado e resolveu voltar para casa mas antes de sair ele se voltou e deu um grande abraco no velhinho.

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