Da melancolia à metamorfose. E Kevin.

Infelizmente assisti Melancolia e li A Metamorfose na mesma semana. Infelizmente, não porque eu não tenha gostado da parte literária ou da parte cinematográfica, mas sim por ter juntado as duas. E o motivo é o que elas tem em comum: a trivialidade da vida frente ao sofrimento. Se encarar isso uma vez é ruim, imagine duas.

Não vejo a tristeza como um problema, mas também não faço um ode a ela como Lars Von Trier. Ignorá-la como Kafka, também é incomum para mim. É difícil pensar no que escrever depois de ver Claire e Justine ora desesperadas, ora iluminadas pelo planeta Melancolia, ou imaginar um ser humano infeliz na condição de um inseto tentando se adequar a família, e vice-versa. Mas eu tentei. A Metamorfose é tão simples, que é fácil de imaginar eu ou você no lugar de Gregor e provar o quanto isso é assustador. O ano mal começou, mas já tenho certeza, mesmo ainda sem ter finalizado O Processo, que Franz Kafka é a melhor descoberta de 2012.

E para melhorar o ânimo, porque não adicionar We Need To Talk About Kevin no bolo? O desespero de Tilda Swinton chega a ser palpável. Não sei porque, mas eu simpatizo muito com essas mulheres que parecem com o David Bowie (Miranda de Sex And The City que o diga). Ao mesmo tempo que o perfil psicológico de Kevin dá medo, a atuação de Tilda dá agonia por parecer tão real. O filme não é sobre um adolescente problemático, talvez seja sobre como construir um, mas para mim o filme é sobre o próprio problema em questão. Como escreveu F. Scott Fitzgerald em Suave é a Noite, “nenhuma natureza humana pode projetar-se totalmente sobre outra”, mas Eva talvez tenha conseguido isso sobre Kevin. Na verdade, é fácil culpar Eva, mas o filme é muito bem construído ao apresentar situações onde se compreende totalmente a evasão da mãe. E a repetição de uma mesma cena é evidente: Eva de um lado, Kevin do lado oposto, e no meio uma distância explícita. É difícil chegar a qualquer conclusão, mas isso é só mais um dos méritos do filme.

Poder enxergar tudo isso e participar do ambiente angustiante da vida de Eva em meio a inúmeros flashbacks é consequencia do ponto forte de We Need To Talk About Kevin: sair da tela e entrar na cabeça de quem contempla o desespero arrastado do drama ignorado pelo Oscar 2012. Kevin passa longe de ser um blockbuster.

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Um comentário em “Da melancolia à metamorfose. E Kevin.

  1. A metamorfose me incomoda até hoje, foi um dos livros que li a tanto tempo e só de falar dele a sensação é a mesma como se houvesse acabado de ler. Aquela sensação como se eu pudesse a qualquer momento acordar numa situação que eu não conseguiria mais reverter; medo de ter uma epifania que me revelasse demais eu passaria o resto da vida igual ao gregor =~

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