O mito da palavra “término”

Eu perco muito tempo analisando meu término – atribuindo culpa, deslealdade, ausência. E embora uma amiga sábia tenha me dito um dia que alguma hora eu iria ver o término como uma “inevitabilidade histórica” – caçoando de todas as vezes em que eu falo que fiz história em alguma situação – eu ainda preciso me convencer de que ninguém poderia lidar com essa situação de forma diferente. Era de se esperar que dois anos depois eu já estivesse em paz com qualquer coisa que tenha acontecido após tanto tempo, mas é esse o problema da decisão de tirar alguém da sua vida.

Eu sei agora porque as pessoas ficam, mesmo quando não há mais amor suficiente. Eu não consigo nem decidir sozinha no meu tempo livre o que fazer, decidir qual música ouvir, o que comprar com o dinheiro que sobrou do salário – minha vida inteira é baseada em um grande aleatório por causa do meu medo de tomar decisões. Eu devia saber que o fardo de decidir apagar alguém da minha vida iria pesar.

Então eu decidi mudar de tática. Ao invés de ficar trazendo de volta o passado na minha cabeça, infinitamente, de novo e de novo, analisando e cismando, vamos todos concordar que não há uma forma perfeita de realizar qualquer coisa. Que as opções fantasmas vão sempre permanecer. Tentar encontrar o momento mágico que responde a todas as questões é um esforço inútil. É tão bobo quanto, ah, sei lá, se perguntar como você seria se seus pais tivessem tido preliminares diferentes no dia em que eles te conceberam. No final, quem se importa? Você seria diferente, mas que diferença isso faz?

Não existe um bom momento para partir o coração de alguém, para partir o seu próprio coração, e deixar alguém para trás. Não existe fórmula para o desastre. Não existe uma história que você possa contar para si mesmo depois que irá fazer tudo fazer sentido – “ele fez isso, então claro que eu poderia fazer aquilo!”. Não. Você fecha os seus olhos e salta, e começa a balançar na água, tentando continuar flutuando. É uma coisa estranha – você tem a intenção e sabe o que está fazendo, mas é irracional ao mesmo tempo. Eu nunca estive tão motivada e tão incerta quanto nos últimos anos.

Eu tenho amigos que vez ou outra trazem para mim a incerteza dos seus relacionamentos, a hesitação entre permanecer e ir. Eu não dou conselhos. Términos não são para os fracos de coração. Uma hora você se recupera sim, mas é como retornar de uma cirurgia onde foi necessário separar e juntar novamente todos os pedaços do seu corpo. E os pedaços da minha cabeça ainda não se juntaram completamente, até agora, para me deixarem segura de dizer, decisivamente, “Bom, ISSO foi realmente desagradável, mas foi para o nosso bem!”. Quem sabe se terminar é alguma vez necessário, ou até para o “nosso bem”? Eu não consigo saber se minha vida é melhor agora, ou apostar minha vida que existia uma legítima razão para terminar, porque continuar junto foi um caminho que eu não escolhi. Teria sido muito mais fácil se tivessem terminado comigo e não ter sido quem decidiu que estava tudo acabado. A decisão de terminar é a única decisão que eu já tomei que alguma hora me atormentou, me deixou em dúvida, ou até mesmo tenha provocado em mim algum arrependimento – eu até passei pelo clichê de quem liga, manda mensagem, pede pra voltar quando está chapado. A única coisa que eu sabia quando tomei a decisão era que nem meu corpo nem minha mente conseguiam mais.

Durante muito tempo eu ansiei por distância. Eu queria acreditar que meu ex era um alien – alguém que eu precisava deixar, realmente, alguém com quem eu não podia imaginar algum dia ter me relacionado com. Eu coletei provas de que ele era um demônio terrível e incompreensível – eu não via a hora de chegar o dia em que eu não me lembrasse que o havia conhecido. Achei que o término nos separaria, de forma clara e eficiente, do passado que ambos compartilhamos. Eu pensei que precisava me distanciar, pensei que era isso que terminar com alguém fazia. Pensei que terminar significasse terminar mesmo, literalmente – de forma ingênua, achei que tudo fosse desaparecer.

Por muito tempo, para fazer com que eu me sentisse melhor, eu repassava todas as coisas ruins do relacionamento e do meu ex na minha cabeça. E por um bom tempo, funcionou. Hoje em dia, porém, eu sou incapaz de empenhar a energia necessária para odiar o cara. Algumas vezes, quando nos falamos ou quando escuto qualquer coisa sobre ele, eu sou atingida, e chocada, por um raio da antiga sensação que eu costumava ter quando algo soa familiar, e lá estou eu, esperando que ele fale ou faça o que eu sei que ele irá falar ou fazer, do jeito que sempre se seguiu. Às vezes nós trocamos mensagens e nos falamos um pouco; às vezes não. Não somos mais amigos. Eu perdi meu melhor amigo e uma conversa cordial por mensagens não vai mudar isso. As coisas das quais falamos, as coisas que sabemos que o outro vai gostar de saber, sabemos por causa de outro tempo, elas não tem mais um lugar hoje. E mesmo assim, suas idéias são tão familiares para mim quanto as minhas. Algum dia o passar do tempo vai mudar as coisas, eu imagino, mas por enquanto eu ainda sei o que ele vai dizer antes que ele fale, sei as piadas que virão, suas habituais frases. Eu passei tantos anos prestando atenção, que depois de tudo, eu memorizei ele. “Você ainda ama ele”, disse uma pessoa qualquer após uma breve descrição que eu dei dele por algum motivo, com algo na voz que me deixou furiosa. Mas quem sabe, talvez ela esteja certa. Eu o amei ferozmente uma vez, suponho que não seja inconcebível que eu o ame ainda. Eu nunca entendi porque as pessoas odeiam seus “exes”.

Com certeza os últimos anos apagaram algumas lembranças ruins, o que é um grande alívio. As que sobraram, se borram juntas, e então diminuem. Vendo de longe, eu posso até afastar elas com um balançar de mão. Eu posso agora também, ver através delas, enquanto antes elas faziam um eclipse em todas as lembranças boas. Os bons tempos ainda estão lá, esperando pacientemente atrás de toda bagunça das coisas ruins. Eu não tenho pensado sobre eles já faz algum tempo, mas eles ainda estão lá.

Terminar um relacionamento de tanto tempo tira você do passado e depois coloca de volta. Te dá seu futuro e depois te devolve o seu passado, se você for paciente. É possível, eu descobri, lamentar a perda de alguém que você não via a hora de deixar; é possível derramar lágrimas reais por coisas que você não sente falta realmente, por construções enormes e banais, nas quais você nem acreditava. E você ainda pode amar seu ex, mesmo sabendo na sua cabeça, no seu corpo, na sua alma, no seu coração, que nunca poderia ter continuado com ele. Você pode ainda amá-lo exatamente da mesma forma que amava quando estavam juntos, sabendo que aquele amor em particular, maravilhoso como era, não poderia nunca te sustentar agora.

 

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