Um breve tratado pessoal sobre melodrama

No trem indo para casa, estou lendo, ou tentando ler O trauma da vida cotidiana, de Mark Epstein. Estou sentindo água se juntar atrás dos meus olhos, tentando sair pelas laterais, mas é 9 da manhã. Meu redor está cheio de engravatados com suas malas começando o dia, enquanto eu estou terminando o dia de ontem – eu não vou começar chorar aqui (não que eu tenha certeza de que eu realmente teria lágrimas para chorar, mesmo que eu estivesse sozinha no meu quarto).

Não é o livro que está me perturbando, ou não apenas ele. Na noite anterior eu fui para casa de um cara que eu estava meio que saindo, e tudo ocorreu bem. Mas de manhã eu acordei com uma mensagem de um amigo que temos em comum, ingênuo sobre nosso “relacionamento”, que dizia que esse cara havia saído uma garota x na semana anterior e no dia anterior teria tentado sair com ela novamente, mas aparentemente ela havia saído com um outro colega dele (colega esse que eu conheço e é insuportável). A intenção da mensagem era fazer piada desse cara, mas meu amigo não sabia que era uma piada sobre mim. Eu fui descaradamente a segunda opção da noite anterior.

Desde o começo do nosso pequeno caso ele iniciava todas as nossas interações, ele aparecia nos lugares em que ele sabia que eu estaria, assumia que me “stalkeava” para saber meus horários, e dizia coisas do tipo “a gente vai se falando” quando sabíamos que ficaríamos algum tempo sem nos ver para me deixar pendurada no que quer que fosse isso que estávamos fazendo. Claro que eu sabia exatamente o que estava acontecendo, ele era o don juan irresistível. Ele obviamente interpretava esse personagem já há algum tempo, ninguém sabe exatamente como agir em todas as situações com alguém pela primeira vez se já não fez isso dezenas de vezes antes. Confesso que eu realmente me questionei se eu estava apaixonada depois de tão pouco tempo e me perguntei o motivo de estar o tempo todo analisando qualquer movimento dele e qualquer movimento que eu pudesse fazer relacionado a ele. Até que eu percebi que eu não me apaixonei por ele. Eu me apaixonei por toda essa atenção dedicada a mim mesmo eu não dando tanta atenção de volta, pelo seu braço pesado em volta de mim quando eu acordava, por ele me beijando de manhã sem se importar se havíamos escovado os dentes, por ele se oferecendo para pegar água para mim. Eu me apaixonei por ele deitado no meu colo com o seu cabelo com cheiro do meu shampoo, pela sua fala arrastada. Ele era articulado e despreocupado, curioso sobre mim (me fazia perguntas e recordava de coisas que eu havia falado após dias). Ele me ignorava para depois me perseguir como se eu fosse a porra de um dos beatles – ele sabia como me manipular.

Voltando ao meu livro, eu decidi que aplicaria os exercícios de Epstein ao meu mais recente drama. Mindfulness (atenção completa), um dos principais tópicos do livroé comumente descrito como o ato de focar em um objeto neutro, como a respiração, e observar as emoções, sensações físicas, e pensamentos como eles são apresentados. Mas como é possível observar seus sentimentos e senti-los ao mesmo tempo? Para mim, isso parece muito uma técnica de evasão elaborada (o que claramente me atrai). Mas Mark explica mindfulness assim: “você aprende a viajar pelas ondas de emoção por mais tempo do que normalmente faria. Às vezes há cascatas de sentimento; às vezes se acalma e desaparece”. O nosso primeiro instinto ao nos depararmos com algo que agride nossos olhos, é desviar o olhar, e é o mesmo instinto que temos quando algo nos deixa triste: desviar nossos sentidos. Dessa forma, a tristeza é sentida só na nossa imaginação e na maioria das vezes ela é imaginada numa proporção muito maior do que a realidade. Quando você corre contra esse instinto, você deixa de imaginar e escalar o que sente mais do que deveria, e eu notei que realmente, se eu me deixar levar por esse momento de melancolia e frustração, as lágrimas podem secar surpreendentemente rápido. Não existia tanta água atrás do meu olho quanto eu imaginava.

“Às vezes,” Epstein continua, “há um sentimento muito forte de ter sido prejudicado: ‘Como ele pôde me tratar dessa forma?’ E com o treinamento budista você aprende a focar no sentimento do si mesmo, o que pode ser algo muito forte. Mas o budismo ensina que o si mesmo é uma ilusão, então o que você está sentindo em si mesmo? Eu existo ou não existo quando alguém fere meus sentimentos?”. O que normalmente as pessoas fazem tem muito mais a ver com elas mesmas do que com o outro, por mais que achemos que temos a capacidade de nos relacionar por completo com alguém. Não é realmente sobre você quando alguém te machuca. É o significado oculto da expressão “a beleza está nos olhos de quem vê”.

Minha viagem de trem está no fim. Seguindo o conselho de Mark e mantendo minha decepção e minha tristeza o mais perto que a minha mente permitiria durante a viagem de quase duas horas, eu desembarquei e mergulhei na massa agitada de pessoas na estação de Osasco. Quando meu pai, bastante conselheiro, costumava dizer: “Não gosto de pessoas, gosto de pessoas em particular”, identifiquei-me com seu ponto de vista peculiar. Mas neste momento, eu não poderia ter compreendido isso, porque cada pessoa que eu via, e eu realmente olhava enquanto caminhava para o terminal de ônibus para pegar meu próximo transporte, parecia tão interessante e viva, tão digna de curiosidade e preocupação. Parecia um pouco como se estivessem brilhando, ou talvez fossem, como se a frase “meu coração vai para eles” fosse literal, porque eu queria me oferecer a cada alma. Eu senti o que Stolorow chama de “insustentável imersão do ser” (minha alma ri da ironia porque sempre me senti mais próxima da insustentável leveza do ser de Kundera) – insuportável porque, escreve Epstein, ela trai ao mesmo tempo “nossa impotência, nossa incapacidade de existir independentemente” e a bela e dolorosa angústia de nossa conexão com os outros.

Eu me senti mais leve.

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All along the eastern shore

Eu te contaria todas e quantas histórias você quisesse ouvir, desde que fossem premissas para ter teus olhos tão atentos sobre mim. Aquele olhar que você me deu, quando você soube que eu poderia ser. Nós eramos um acidente esperando para acontecer. Uma pequena coincidência. Um olhar não dado. Um favor ignorado. E então, um sorriso.

A pior e mais deliciosa ideia que eu já tive.

O que eles não entendem sobre a garota que eles chamam de “de boa”

Se você perguntar como eu sou para qualquer pessoa que me conheça, eu posso praticamente garantir que um dos adjetivos que serão falados é “de boa”. Eu sempre achei que fosse um tipo de elogio não muito lisonjeiro.

“De boa” significa relaxada e fácil de se lidar, o que é ótimo, mas também é algo associado a falta de motivação ou compromisso. Em qualquer um dos casos, como uma “garota de boa” que gosta de andar com outras garotas de boa, eu me nomeei expert nesse tipo de garota.

A garota “de boa” anda muito de chinelo e tênis, sai de casa às vezes até de pijama, não se preocupa muito com o cabelo fora do lugar, tudo isso devido a sua falta de preocupação com a aparência em ocasiões cotidianas. Ela provavelmente tem uma vasta coleção de músicas na sua conta do spotify ou deezer, e com qualquer coisa que toque quando você conectar o seu celular ela vai ter algum tipo de conexão.

Ela não odeia nenhum tipo de comida, então, quando você perguntar onde ela quer comer, ela vai dizer “pode ser qualquer lugar” e será sincero. Ela pode falar sobre alguns assuntos sensíveis, sem exigir muito da sua réplica. Ela não leva nada tão a sério assim, o que faz com que você fique confortável. Ela vai rir das suas piadas (mesmo que elas não sejam engraçadas). Já ela, não é exatamente uma garota engraçada, mas vai fazer você cair no chão algumas vezes dizendo coisas incrivelmente na hora certa.

Ela provavelmente é “brother” dos “brothers”. Ela se empolga na rua tomando um sorvete da mesma forma que se empolga em uma noitada sem dinheiro, ou em algum lugar super chique e brilhante. Ela com certeza bebe mais que você.

Ela é simplesmente aquela pessoa sem drama, sem jogos, e uma grande amiga para se ter por perto. Ela é transparente, mas por algum motivo, nós entendemos tudo errado sobre ela. Nós supomos previamente algumas coisas sobre ela.

Nós achamos que a garota de boa não vai ligar se preferirmos comprar aquela roupa imperdível da vitrine ao invés de pagar o dinheiro que ela nos emprestou. Nós achamos que tudo bem fazer aquela brincadeirinha passivo-agressiva, ela nunca reclamou. Se você está saindo com a garota de boa, você pensa que não é nada demais para ela se você flertar com outra pessoa quando estiver bêbado. Se ela precisa de você hoje, mas você está com preguiça de encontrar com ela, você acha que ela vai superar. “Ela é legal, ela sabe que pode contar comigo, é só hoje”.

A atitude relaxada dela é bastante confundida com “aceito qualquer coisa”, o que coloca a garota de boa em uma situação perigosa. A sua natureza “de boa” vai atrair os caras (e outras garotas) que não querem nada sério, deixando ela mais vulnerável do que outra garota qualquer.

Eu aprendi isso do jeito difícil.

Um cara casado com uma colega deu em cima de mim e ficou boquiaberto por eu achar isso um ultraje e jogar na cara dele o quão babaca ele era. Um outro cara ficou impressionado com o fato de eu não querer fazer sexo casual em uma festa. E como se não bastasse, um outro cara me disse uma vez que achou que não precisava me respeitar, já que eu era – acredite – “tão de boa com tudo”.

Mesmo que a garota “de boa” não aja que nem uma maluca ao redor de alguém que ela goste ou não expresse o tanto de sentimento esperado, não significa que ela não os tenha. As garotas de boa são só mais privadas, e você nem sempre vai saber qual delas é uma romântica incurável.

Ela é “tão de boa com tudo” simplesmente porque é o que você quer e ela se importa com você. Um dos maiores segredos da garota de boa é que ela prioriza as vontades das outras pessoas antes das dela. É por isso que ela é tão fácil de se lidar. A garota de boa é altruísta, mas isso às vezes vem de inseguranças cicatrizadas ou falhas de personalidade. Ela quer agradar todo mundo porque ela procura aprovação. Ela não fala sobre o que está incomodando ela, não porque ela não tem sentimentos, mas porque ela não suporta a ideia de criar drama ou tensão. Você vai vê-la tomando responsabilidade por coisas que não devia, simplesmente porque ela quer que a normalidade seja restaurada. A garota de boa é a garota que luta com o desequilíbrio, tudo que ela quer é realmente “ficar de boa” e encontrar algum equilíbrio.

Então, certamente o que ela aparenta não é como ela se sente. Tenha isso em mente na próxima vez que você interagir com uma garota “de boa”. Ninguém é exatamente o que parece.