O encontro marcado

Sei que estou lendo um livro ótimo quando começo a não lê-lo, me permito ler no máximo duas páginas de cada vez. Um livro bom, leio sem parar. Mas um livro ótimo, leio durante meses.

E Fernando Sabino escreveu O encontro marcado, uma autobiografia ficcional. Os personagens são versões também ficcionais desses amigos incríveis. No livro, Fernando é Eduardo.

Fernando e eu, conversamos no metrô, no ônibus, numa praça perto do trabalho, na varanda, deitados na cama, apoiados contra a parede.

Sentou-se num banco da Praça, buscou acalmar-se olhando os jardineiros que, indiferentes, aparavam a grama no jardim. Eles, sim, sabiam viver. Nenhuma pressa, nenhuma aflição: obedeciam ao ritmo que lhes era imposto, harmonizavam-se à ordem das coisas ao redor. Era como se ele, apenas ele, excedendo a si mesmo, num movimento brusco saltasse fora da engrenagem e, desgovernado, pudesse ver de longe o mundo pacífico e feliz de que não sabia participar.

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L

Estou em casa, fazendo nada com o dia épico que está entrando pela minha janela. Quer dizer, estou ouvindo música, mas isso eu faço o tempo todo.

Para você, todas as músicas que não ouviu, inclusive “Baby baby”, uma alternativa oitentista que você odiaria. Você diz que não mudaria nada em mim, mas eu duvido que se você pudesse não daria nem uma mexidinha no meu gosto musical. Queria te falar sobre essa música e várias outras. Você deveria ouvir e não ler. Escutar nesse domingo, nesse fim de semana que pensamos em dividir mas você precisou ficar fora.

Imagine que nesse domingo estamos mais uma vez em casa, fazendo nada, olhando para o teto, olhando um para o outro. Ou de olhos fechados, ainda assim olhando um para o outro.

Vou sentir falta de você cantando na frente da minha cama.

Para você, “Wild world”, já que tão gentilmente me tirou dele, me pegando pela mão, literalmente.

Enfim.

A música acabou, você não leu isso, nem ouviu a música. Nem a que eu citei, nem a que já começou. Mas semana que vem teremos outras músicas.

I’m gonna keep you in love with me, for a while.
I’m gonna keep you in love with me.

A Insustentável Leveza do Ser (Milan Kundera)

(…) Quanto mais pesado o fardo, mais nossas vidas se aproximam da terra, fazendo-se tanto mais reais e verdadeiras.

Inversamente, a ausência absoluta de um fardo faz com que o homem se torne mais leve do que o ar, fá-lo alçar-se às alturas, abandonar a terra e sua existência terrena, tornando-o apenas parcialmente real, seus movimentos tão livres quanto insignificantes.

Rascunho de uma futura carta (que não será enviada)

Eu fui matando você aos pouquinhos. Não foi fácil no começo, mas agora parece que está em piloto automático. E precisava te contar que o seu enterro é uma das melhores sensações que tive nos últimos tempos.

Eu fui matando você aos pouquinhos. O motivo para eu ter te conhecido tão bem ao ponto de você achar que isso era algo especial ou mesmo excepcional é porque você sempre foi essa menininha previsível. E se tem algo que eu conheci em todos esses anos, foram pessoas imaturas que pensam que suas vidas são muito mais importantes ou complicadas do que são na realidade.

Aliás, agora que penso no começo, na verdade foi facílimo te matar. Você não me surpreendia, não me instigava a querer te desvendar. Seu amor por mim era na verdade amor por você, pois eramos quase uma pessoa só, e por isso ele acabou tão rápido e por motivo algum. Eu era a pessoa interessante da nossa relação, e eu sei que é autocentrado dizer isso, mas eu sempre sou a pessoa interessante de qualquer relação, mesmo que seja entre outras duas pessoas e eu seja apenas um fantasma.

Eu senti sua falta, mas eu fui matando você aos pouquinhos.